MOVIMENTOS DE 1968
Tarcísio Barbosa


O ano de 1968 foi pródigo em eventos que mudaram a face da sociedade. Houve o maio de 68 na França, movimentos mundiais contra a guerra do Vietnam, a primavera de Praga, o assassinato de Martin Luther King. No Brasil houve a prisão de 1000 estudantes em Ibiúna no Congresso da UNE e a edição do famigerado AI-5. Em Viçosa eu fazia o terceiro período de agronomia.

O maio de 68 na França começou por uma greve estudantil liderada por Daniel Cohn-Bendit – le rouge ( le rouge – vermelho por causa de seus cabelos), que parou as universidades francesas. O movimento estudantil contaminou os trabalhadores que ocuparam centenas de fábricas. Eram 10 milhões de trabalhadores da iniciativa privada em greve. Daí para os serviço público foi um pulo. De Gaulle dissolveu a Assembléia Nacional Constituinte, convocou eleições gerais, ganhou e continuou no poder. Depois de concordar com uma pá de exigências dos grevistas: estudantes e trabalhadores. Dani - le Rouge seguiu a carreira política, tendo sido prefeito-adjunto de Hamburgo e hoje é deputado do parlamento europeu pelo partido verde.

Martin Luther King, pastor batista e militante pelos direitos civis dos negros americanos, nasceu em Atlanta em 1929 e foi assassinado em Memphis no Tenessee em 4 de abril de 1968. Ele organizou e dirigiu diversas marchas pelo direito do voto, o término da segregação racial e outros direitos civis elementares do negro americano. Esses direitos, mais tarde, foram reconhecidos pelas leis Civil Rights Act e Voting Rights Act. Seu discurso mais conhecido foi pronunciado em Washington perante o Lincoln Memorial: I have a dream – eu tenho um sonho.

A guerra do Vietnam estava no auge. No mundo inteiro havia protestos contra ela. Queima de bandeira americana e o canto da música, criada em 67 por um italiano.

“Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones/ girava o mundo sempre a cantar as coisas lindas da América . . .” Essa música foi sucesso absoluto no mundo inteiro e traduzida para várias línguas, chegando a causar até um estremecimento nas relações ítalo-americanas.

Em 1968 os tanques russos invadiram a Checoslováquia contra o movimento político que ficou conhecido como a Primavera de Praga. Alexander Dubeck, primeiro ministro, pregava a liberdade de imprensa e a livre organização partidária, que poria fim ao monopólio do PC. O sonho acabou com os tanques russos invadindo a Checoslováquia e a deposição de Alexander Dubeck. Fato semelhante acontecera na Hungria em 1956.

No Brasil, estávamos em plena era da ditadura militar que tivera seu início em 31 de março de 1964.

No dia 12 de outubro de 1968, um chuvoso sábado tropical, mais de duzentos policiais do DOPS paulista conseguiram uma façanha talvez única no mundo. De uma botinada só e sem enfrentar resistência, prenderam mais de mil estudantes que participavam do XXX Congresso Nacional da UNE, entidade nacional estudantil proibida pelos generais no poder. A partir daí o movimento estudantil, um dos únicos canais de oposição ao regime ainda em atividade, esfacelou-se definitivamente.

Em dezembro de 68, exatamente no dia 13 foi promulgado o AI-5: instrumento utilizado pelos militares para aumentar os poderes do presidente e permitir a repressão e a perseguição às oposições. Entre os poderes outorgados pelo AI-5 estava o de decretar o recesso do Congresso Nacional. Geisel fê-lo em abril de 1975, no que ficou conhecido como o pacote de abril. Fechou o Congresso e nomeou senadores que foram apelidados pela imprensa de biônicos. Pelo AI-5, o governo podia intervir nos estados e municípios. Podia suspender os direitos políticos dos cidadãos por até 10 anos, bem como cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais. Podia demitir, remover, pôr em disponibilidade e aposentar funcionários públicos. Então ocorreu o que ficou conhecido como o “Massacre de Manguinhos” em que 12 pesquisadores, os melhores em seu campo de trabalho no mundo, foram compulsoriamente aposentados. Suspensão de habeas corpus para crimes políticos e de segurança nacional.

Em Viçosa, em 1968, nada aconteceu de monta. Não que eu me lembre. Eu fazia o terceiro período do curso de agronomia. Dava aula de inglês no Colégio de Viçosa e de português no Ginásio Raul de Leoni e eventualmente de francês, quando o professor não aparecia. Num total de 16 aulas por semana.Tomava grandes porres e fui expulso do alojamento da UFV por causa de uma “aprontação”. Nunca fui lá muito santo. Ah, também levei uma suspensão de aulas de uma semana. Por pouco não perdi o semestre. Neste ano, lá pelo mês de maio arranjei uma namoradinha que morava lá na rua dos Passos. Encontrei com ela algumas vezes e depois desapareci simplesmente. Um dia uma amiga dela encontrou-se comigo e perguntou-me o porquê do meu desaparecimento. Eu lhe disse que acabara o encantamento. Como todos os dias eu passava lá pelas 18:30 em frente à casa da ex-namoradinha para ir para o Ginásio Raul de Leoni, ela chegava à janela e falava: “Encantamento, como vai você!

Eu morria de vergonha, pois sempre fui muito tímido!


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