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O CARNAVAL PASSOU, ELA PASSOU TAMBÉM... Tarcísio Barbosa |
Era sábado de carnaval. Passei a tarde no Viçosa Clube conversando fiado e tomando umas e outras. Fui para casa lá pelas 19h, tomei um banho, tirei um ronco e acordei lá pelas 22h. O barulho do carnaval lá fora estava contagiante. Pensei: fico em casa ou vou pra folia? Houve uma tremenda discussão entre meus dois anjos: o mau e o bom. Aquele com dois chifres e o tridente e aquele bonzinho com asas e fala mansa. Ganhou o anjo mau que espetou o tridente na bunda do anjo bom, mandando-o passear. Resolvido o impasse, vesti minha fantasia de árabe e saí à procura da minha odalisca, visto que colombinas e melindrosas não existem mais. Pelos bares da vida, eu passeei, cumprimentando os amigos, dando beijinho nas amigas... Sair com amiga não vale! Lá pelo décimo bar, quando eu já quase desistira, eis que surge uma odalisca. Se não era verdadeira, pelo menos estava vestida como tal! E a atração foi mútua. Sem muita prosopopéia, fui longo convidando para uma cerveja. Saiamos daqui e vamos tomar uma cerveja a sós por aí? Vamos, sim, pois hoje estou para o que der e vier - disse-me a falsa odalisca. Fomos no carro dela para um bar num bairro distante. E bebemos, e conversamos, e trocamos idéias. E não fomos para nenhum baile. Fomos para o apartamento de uma amiga dela que ao viajar lhe cedera. No outro dia de manhã, levantei-me pé ante pé, fui ao banheiro e escovei meus dentes com a escova mais bonita que encontrei no armário. Procurei um colírio que pinguei nos olhos. Retornei ao leito e foi aí que eu vi como era bela, pois não eu estava mais com os olhos obnubilados pelos vapores do álcool. Seu rosto de marfim; seus olhos de cobalto; seus lábios de rubi; suas pernas qual duas colunas de alabastro; seus dentes duas fileiras de pérolas; e seus seios eram como duas tâmaras colhidas no deserto - afinal de contas era uma odalisca. Seu hálito sabia a cravo e canela. Seu cheiro era uma mistura de rosa, incenso e outras essências mil. Dizem por aí que homens mais velhos se interessam por mulheres mais novas por causa do cheiro delas. Será! Quando eu quis ir embora, pediu-me que ficasse. Para mim não foi um pedido, foi uma ordem. Vimos televisão, conversamos, e eu fiz uma comida bem gostosa para nós. Ficamos juntos por três dias no apartamento, conversando, aos beijos e abraços. Do carnaval, nós nos esquecemos. Na terça-feira, fomos dormir já com as forças exauridas de tanto amor. De manhã, ela se fora. Deixara um bilhete de despedida dizendo simplesmente: “Como foi bom! Não pergunte para a proprietária do apartamento meu endereço, meu nome verdadeiro, telefone ou email. Ela nada lhe dirá. Ficará entre nós a lembrança eterna dessa paixão avassaladora”. Minha odalisca! Como amei você nesses três dias de carnaval. Hoje ficaram somente os sonhos, que me acorrem de dia e de noite. Todas as noites são de sonho, mas as desse carnaval foram de realidade. Nas estrelas do céu, eu vejo seu rosto e na brisa da manhã, eu ouço sua voz. Do mais profundo do meu ser amei você. Quantas saudades de seu sorriso cristalino! Será que algum dia ainda nos veremos! Sonhe, Tarcísio, sonhe! Não só com as odaliscas, mas também com as valquírias do Valhala e com as iaras de nossos rios! Que sonhar não paga imposto! Crônicas anteriores:
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